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15 de março é o dia da escola - devemos comemorar?

  • Foto do escritor: Marta Picchioni
    Marta Picchioni
  • 18 de mar. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: 19 de mar. de 2021

Eis que, após mais de vinte anos trabalhando com educação e na escola, soube apenas esta semana, por uma notificação de whatsapp, que no dia 15 de março comemora-se o dia da escola. Fiquei no mínimo pensativa: deveríamos comemorar?


O calendário gregoriano, promulgado no século 16, pelo Papa Gregório XIII, a quem seu nome homenageia, tem origem católica e europeia, razão pela qual foi rapidamente adotado em países como Portugal, Espanha e Itália, majoritariamente católicos. Logo foi adotado também por países de outras matrizes religiosas, de modo que, hoje, é válido na maioria do globo, tendo como função principal padronizar o modo como contamos a passagem do tempo.


No processo de laicização dos Estados, a existência de feriados ou datações religiosas, embora ainda presentes, foi dando lugar à criação de marcações históricas, de modo que as datas comemorativas acabaram por variar de acordo com a localidade e cultura de cada país, estado ou município.


O Natal, por exemplo, tem apelo comemorativo mundial - embora haja exceções - não apenas por ser o símbolo máximo do cristianismo, mas principalmente por ter sido abraçado pelo espírito do capitalismo, que inventou a figura do Papai Noel e fez da data um grande motivo para celebrar, dar e receber presentes e consumir.


No Brasil, outras datas comemorativas seguem articuladas a um híbrido entre marcações históricas, religiosas e festejos da cultura local, como os feriados juninos, o dia da independência, a páscoa - que, como o natal, une a comemoração cristã à cultura de mercado, com a venda em massa de ovos de chocolate e afins - e também o carnaval, festa popular que faz do país referência internacional em lazer e turismo.


Algumas datas, ainda, figuram no calendário como a afirmação de um gesto político, como é o caso do dia da mulher, do dia das crianças ou do dia da consciência negra. Seguindo essa mesma lógica, foram criados datas para homenagear profissionais dos mais diversos campos de atuação, como, o dia do professor, do médico, do dentista, do enfermeiro, e assim sucessivamente. Mais recentemente, tem surgido um movimento de criação de datas para homenagear nossas relações corriqueiras, como o dia dos irmãos, dos primos, dos avós, da amizade, o dia dos namorados, dos solteiros, das mães, dos pais. E, ainda, a criação de datas que chamam atenção para questões ligadas à saúde, como o dia da prevenção do suicídio, do câncer de mama, de próstata, do combate ao HIV e assim por diante.


As motivações e a quantidade de um dia oficial para chamar de seu expande-se a cada ano, alcançando as mais diversas áreas de nossas vidas, acabando por produzir uma espécie de efeito reverso: com tantas datas a serem lembradas e homenageadas é como se a importância de cada uma delas perdesse a força e a estratégia caísse em um esgotamento por seu próprio uso indiscriminado.


Fazendo uma rápida pesquisa sobre onde e quando surge o dia da escola, deparei-me com pequenos artigos que contam sobre a história da criação dessa instituição, além de alguns vídeos curtos no youtube, que fazem uso de uma linguagem bastante infantilizada, para nos contar o básico: é na escola que aprendemos o nome das cores, das letras e a contar.


A impressão que fica é que a criação do dia da escola cai num vazio de práticas e significados e que os escassos materiais produzidos a este respeito destinam-se a um público que precisa ser apresentado ou mesmo convencido de sua importância. É aí que algumas perguntas ressoam no ar: será que não sabemos da importância da escola? Ou será que, na atualidade, este papel tem sido posto em questão?

Ao que tudo indica, a criação, um tanto arbitrária, de um dia específico para se comemorar a existência da escola, soa quase como se tivéssemos que convencer a nós mesmos sobre sua relevância e pouco contribui para afirmar o valor do que se faz - ou deveria se fazer - nas instituições escolares, para além de gerar uma enxurrada de posts de auto felicitação nas mídias sociais.


Inventar uma data para dizer da importância da escola mostra-se um caminho, se não de todo prejudicial, absolutamente inócuo e ineficaz para o que imagino, seja a intenção ao lançar mão deste tipo de mecanismo. Aqui, penso que vale a pena pôr o dedo na ferida e nos questionar mais a fundo se de fato ainda acreditamos na importância dessa instituição e, se sim, que ações realmente interessantes podem ser empreendidas na direção dessa afirmação.


Para quem a frequenta - professores, estudantes, famílias - o dia da escola é todos os dias, pois historicamente é nesta instituição que acontece - ou deveria acontecer - grande parte da transmissão cultural e social que sustenta uma sociedade, além da produção de conhecimento que nos conecta a todos, como pequenas partes de uma grande aldeia humana. A questão central, ao que parece, mora justamente neste deveria, indicando que, talvez, a escola não esteja produzindo de modo satisfatório aquilo para o qual foi concebida: o aprendizado daqueles sob sua responsabilidade.


Neste ponto, uma breve digressão: a instituição escolar nasce na modernidade como um dos dispositivos disciplinares com propósito muito claro: ser o lócus social por excelência onde se produz a formação instrucional e intelectual daqueles que passam boa parte da vida sentados sobre seus bancos. Ocorre que, passados mais de cinco séculos de sua criação, muito daquele velho modo de operar já não responde às demandas sociais da nova época, tornando-se necessário encontrar outras maneirar de atuar.


A busca por uma boa medida, entre o que precisa ser mudado e o que, ao contrário, deve permanecer, apresenta-se como um dos grandes desafios da escola na atualidade. Tal qual o panorama, sabemos que a tarefa tem sido complexa.


O mundo muda vertiginosamente, os sujeitos se constituem de novas maneiras, o conhecimento é produzido e compartilhado em muitos lugares sociais, para além da escola que, por sua vez, sobrevive. Sua importância, no entanto, não se afirmará pela criação de mais uma data comemorativa em um calendário infestado delas, mas naquilo que de relevante, único e indispensável só ela pode fazer.


Significa que, embora importante, a escola precisa se debruçar sobre o que lhe compete fazer de mais essencial e entregar-se a tarefa de rever suas velhas práticas, sem cair na tentação de aderir a modismos, que mais falam à cultura do marketing que à tarefa educativa a qual se destina. Isso porque a escola não é uma ilha e, inserida em um contexto maior, precisa caminhar à altura de seu tempo.


Que hoje não basta incidir sobre a formação instrucional do estudante, mas sobre a formação de um sujeito integral, nós sabemos. A questão é como fazer isso sem abrir mão do rigor necessário para dar conta da primeira parte. Talvez a escola, sozinha, não possa dar conta de tudo e ter consciência de seus limites é um primeiro passo para ter clareza de seu papel e poder afirmá-lo por meio de boas escolhas, levadas a cabo até o fim.


Que a escola é importante, não temos dúvida. A questão que se coloca diz respeito ao modo como sua importância será afirmada e reconhecida pela sociedade em geral. É preciso que nos perguntemos de que escola falamos e em que direções nos cabe investir, sem medo ou ressalvas de abrir mão do que já não nos serve, para que possamos criar caminhos de superação e reinvenção deste lugar social.


Uma coisa é certa: não é desejável investir em práticas criadas para a escola do século 19, duzentos anos depois, nem tampouco querer abraçar todos os desafios que o mundo contemporâneo nos impõe. Que sejamos uma escola de boas e acertadas escolhas para que não deixemos nossas tarefas pela metade, nem abramos mão do que consideramos, ainda, essencial.






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