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Brincar de ser Manoel

  • Foto do escritor: Marta Picchioni
    Marta Picchioni
  • 16 de set. de 2021
  • 1 min de leitura

A mãe reparou que o menino

gostava mais do vazio

do que do cheio.

Falava que os vazios são maiores

e até infinitos.

Manoel de Barros




obra: Albert György


Hoje fiquei com vontade

de brincar de ser

Manoel

e como ele

caçar vazios

e silêncios e intervalos e

coisas

que mesmo com os olhos bem

apertados

não

podemos ver.



Tudo isso parece tão

raro

nesses tempos que

escapam

escorregados

ao ritmo da

máquina: tac tac tac

control

enter shift delta: a variante

que a-

sombra a cidade

e exige de nós

a produtividade das

documentações.



calma

lá fora faz

sol

pode sair para

brincar

de ser Manoel:

o menino que

gosta

do vazio e de vestir

mundos.



Vive de ver

aquilo

que ninguém mais

esses tesouros

temidos

que quando - e se

os encontramos

trememos:

e agora? como é que se brinca disso?



pois o vazio - e o silêncio

não

basta encontrá-los

é preciso re-conhecê-los,

ele diz.

buraquinhos de agulha

mínimos

em agendas povoadas

de marcas desencontradas

segunda a segunda, manhã

e noite.



Para plantar silêncios - e vazios

é preciso

começar

pela pele.



Por as palavras

uma a uma

para descansar.



Com a ponta dos dedos,

leve-as ao varal,

onde dormirão

penduradas,

até escorrer

cada gota

de seu

excesso explicativo.



Aproveite

ouça o som do vento

que passa,

enquanto

a boca sente

o gosto

das paisagens secretas



quase inaudível, ele

o vento

sussurra:

Tem mais presença em mim, o que me falta?


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© 2022 Marta Picchioni

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