top of page
Buscar

Criar para si uma caixa de ferramentas

  • Foto do escritor: Marta Picchioni
    Marta Picchioni
  • 29 de abr. de 2021
  • 4 min de leitura

Quando o mundo que conhecemos dá mostras de já não ser o mesmo, sentimos a mudança chegar pelo ar, pela terra, pelo chão que estremece e, ainda que nossos corpos sejam tomados por Isso que nos acontece, não encontramos palavras que possam servir de nome de batismo a Isso, que já está aí.



Angústia, falta de sentido, vazio - são algumas das possibilidades apreendidas por nós quando nos encontramos em pleno processo de desterritorialização.


No embate entre mundos, na colisão entre tempos - velho e novo, passado e presente - a tensão pode se atualizar em nós como medo e incerteza, mas também com euforia: a vontade de se lançar ao novo, deixando para trás e de uma vez, a velharia empoeirada que já não responde aos nossos anseios.


Entusiastas e passadistas. Costumamos oscilar entre essas duas disposições: os que não veem a hora de se lançar às boas novas e aqueles que custam a se libertar das memórias inscritas na pele e na história, investindo na preservação de um ambiente estável e conhecido, como se o passado fosse uma espécie de essência, a qual devemos sempre retornar.


Se há uma coisa certa, porém, é que a vida segue seu fluxo, sustentado pela lei da impermanência, onde a passagem e o encontro entre os tempos não para de acontecer. Será, portanto, no próprio terreno do mundo já instituído que o novo encontrará solo fértil para eclodir transformando todo o entorno, num permanente ciclo de renovação.


Evoco a imagem da planta que ao romper a superfície do solo, faz-se viva, vida. Para existir, foi preciso partir deste terreno já estabelecido, mas também, empreender uma força de ruptura suficiente para perfurá-lo, estremecer o solo fixado e, assim, transformá-lo no decorrer do processo. A planta, ao nascer, coloca-se como existência afirmativa que modifica tudo ao redor.

Eis que um dia, chega um jardineiro e, insatisfeito por ver a vida insurgente a lhe obstruir a paisagem, a transporta dali para um vaso. A nova vida, nem bem nasceu, tornou-se ornamento de uma casa ou jardim, domesticada pelas mãos e pelo olhar daquele que, ainda que munido de boas intenções, a circunscreveu num lugar de plantas: um vaso qualquer, um canto da casa, uma esquina no jardim, onde foi feita adorno ou paragem para nosso deleite. A nova vida, tão logo eclodiu, tornou-se muda, utilitária e posta sob os desígnios dos códigos vigentes, sem encontrar lugar de expansão para o que de realmente novo precisa e quer emergir.


Diante do impasse de uma nova força em ebulição, nossa tendência é apresentar-lhe às velhas formatações: os vasos, as ideias pré concebidas, os caminhos já traçados, as palavras já existentes. Criamos toda uma lógica de captura em nome do pertencimento e da conservação, como parte de uma herança invisível entre os tempos e que opera como força de permanência - sem deixar que a presença do inédito venha, de fato, a se expandir como força de diferenciação.


Diz Suely Rolnik que aquilo a que chamamos garganta, o povo guarani chama ninho de palavras-alma. A imagem, além de belíssima, é poética, na medida em que permite dar vazão a um viveiro de novas ideias e sensações que também precisam eclodir para que possamos inventar nomes e afirmar existências que, de todo modo, já estão aí-aqui aninhadas.


As palavras-alma, como germes de expressão de um novo mundo, já existem na condição de embriões de afetos que nos constituem - o mundo já é outro, o solo já se rompeu e nós já nos desterritorializamos - mas, por alguma manobra de apego às formas constituídas, ainda não adquiriram a consistência necessária para sair de nossas bocas mundo afora, nomeando nascimentos e as novas eclosões de vida.


Talvez, isso diga muito de nossos modos de nos relacionar com mudanças: o apego às formas fixas e conhecidas, às contenções tão bem presentificadas pelos vasos e canteiros e o desabrochar dos ramos rebeldes, rapidamente podados pelas mãos ágeis do jardineiro em nós, esse domesticador de vidas insurgentes.


É assim que, diante de sensações ainda sem nome, vamos nos virando com as palavras disponíveis, aquelas possíveis: os sinônimos, as onomatopeias, os ruídos que nos permitem expressar, de algum modo, os incômodos por estar entre cá e lá, meio trôpegos e desequilibrados sobre um solo em plena atividade tectônica.


É aqui que vale recorrer à nossa caixa de ferramentas, esta, tão bem construída ao longo de uma vida e que, mesmo feita de palavras passadas, consegue se atualizar a cada tempo, porque permite diferentes usos, sempre à altura do que pede o presente.

A caixa, um pouco empoeirada pelo desuso, assim que aberta, vê seu conteúdo se agitar, recém desperto pela longa hibernação e eufórico diante da possibilidade de se compor com os germens que começam a brotar por todo o canto. Há ali palavras-martelos, ideias-prego, livros-furadeira, filmes-porcas, poesias-chave de fenda, escritos-trena, grifos-alicates, músicas-serrotes e o que mais pudermos usar para abrir passagem ao que vem por aí.


Em nossas mãos, a caixa de ferramentas vibra com suas N possibilidades de ação, agora multiplicadas pelo iminente encontro com as palavras-alma e com as plantas recém saídas do subsolo. Temos em vista uma infinidade de composições que nos põe a criar engenhocas e maquinários inéditos: uma palavra-ideia combinada a um conceito-trena e um novo modo de usar; uma imagem-martelo transposta para um contexto chave de fenda + uma música parafuso, produz um ritmo inusitado, que faz o corpo dançar.


A caixa de ferramentas, com seus elementos já consolidados, nos ajuda a dar materialidade não só às palavras-alma, ainda aninhadas nas gargantas quentinhas, mas às próprias vidas que emergem de nossas peles e querem se afirmar enquanto tal, sem que as enquadremos em vasos ou canteiros, como se fossem insuficientes para se firmar por si só.


Aqui, o já existente pode se compor de muitas formas para dar sustentação ao novo, sem fazer dele um igual, um herdeiro, um filiado. Faremos de nossas ferramentas um vetor de passagem que permitirá não apenas diferentes usos e combinações, mas a criação de novos operadores, para que possamos não só abraçar o novo, mas fabricá-lo, dando materialidade ao que já borbulha em nós.


Usar palavras já constituídas, portanto, para dar vazão à outras, embrionárias, que venham a se afirmar como nomes de intensidades já presentes em nossos corpos vibráteis. Eis um bom e imprescindível uso para nossa caixa: ao passo que afirma o lugar e a importância do já constituído, utiliza-o como passagem para o que chega, dando vazão às singularidades que querem e precisam emergir.


É com nossa caixa que seremos capazes de instituir e criar uma micropolítica dos afetos.



Comentários


© 2022 Marta Picchioni

bottom of page