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Da mãe que partiu

  • Foto do escritor: Marta Picchioni
    Marta Picchioni
  • 6 de jan. de 2022
  • 4 min de leitura

Toda vida é, obviamente, um processo de demolição

F.Scott Fitzgerald



Há uns anos, nem tantos, li o impactante livro de Elena Ferrante, A filha perdida, que agora desponta lindamente em sua versão em vídeo, na Netflix.

A filha perdida fala, antes, de uma mãe que partiu e que talvez, por ter partido, retorne ao longo do filme aos momentos que antecederam sua decisão.



Quando uma mãe resolve partir, o que fica? É mais ou menos em torno dessa temática que o filme gira, explorando as relações, sempre ambivalentes, entre as mulheres e a maternidade.


Isso porque estamos relativamente acostumados a ouvir dizer de pais que se foram e reconstruíram suas vidas, aparentemente sem maiores culpabilizações. Na literatura e no cinema, temos inúmeros exemplos de mães que ficaram, infelizes ou resignadas, dando conta das demandas cotidianas que envolvem a criação dos filhos. Também, neste contexto, emerge, não sem custo, uma certa narrativa da mulher guerreira, aquela que faz o que é preciso, apesar das circunstâncias adversas.


Sobretudo neste aspecto, o romance de Helena Ferrante, agora tornado filme, foge à regra. É a mãe que parte e o faz porque quis, porque foi atrás de viver seu desejo, essa linha pulsante que a chamou para um outro lugar.


Seguir ou não seguir uma linha desejante?


Passados quase vinte anos da sua decisão, constatamos que não há como passar incólume por este tipo de escolha, e a de Leda Caruso, nossa protagonista, se apresenta ainda pulsante, como uma ferida aberta, que dói um pouco a cada dia. Nenhum caminho será sem custo.


De férias numa cidade litorânea, a protagonista vê, em cada pequeno detalhe, imagens de sua história com as filhas e a vida em família. Os flashes do passado tornam-se ainda mais vívidos enquanto observa uma jovem mãe, Nina, brincando com a pequena Helena, na praia, como se as duas encenassem a existência do mais puro e incondicional amor: o amor materno. Leda parece querer pôr à prova aquele amor, como se não acreditasse realmente naquilo que vê.


Retirar-se da vida em família. Retirar-se de seu lugar de mãe para viver a vida sob outras perspectivas, para viver uma paixão ou aventurar-se pelo mundo como fez a dupla de andarilhos que, em certa ocasião, ela conheceu. Os motivos para partir podem ser muitos, e os visualizamos nas figuras de seu anfitrião Lyle, e do andarilho que saiu em busca de aventura com a amante, enquanto seus filhos ficaram sob os cuidados da mulher abandonada. Leda parece colecionar exemplos aqui e acolá para, talvez, justificar sua decisão.


Poderia ela ter feito diferente? Talvez. Talvez uma mãe não deva abandonar seus filhos, mas caso o tenha feito, isso é sinal de desamor?


Ainda no terreno das especulações, talvez Leda sinta que sim, e este é o seu calvário, já que o episódio a persegue vida afora, como um atestado de seu egoísmo e incompetência, que diz muito sobre nosso modo de pensar a maternidade: a mãe como uma figura assexuada e sempre a postos para os filhos, como se fosse uma extensão de seus corpos.


Em contrapartida, testemunhamos sob as lentes de Leda, o amor espetacular e harmonioso entre Nina e Helena. Ali, em ato, estão a alegria e o prazer que ela não foi capaz de sentir na relação com as filhas, e então questiona: o quão frágil seria esse tipo de amor?


É quando a mulher, beirando os cinquenta anos, surrupia a boneca da pequena menina e observa, dia após dia e em silêncio, os efeitos de seu gesto. A menina chora, adoece, e tiraniza o corpo da mãe. A suposta harmonia rapidamente se desfaz, como um castelo de areia sob a força das águas do mar, enquanto Leda a tudo contempla.


A boneca desaparecida - roubada - talvez encene algo de sua própria partida. Como suas filhas ficaram quando ela não estava lá?


Ao longo de idas e vindas, entre passado e presente, testemunhamos a trajetória de uma mulher complexa, que mesmo quando estava presente, não se entregou às demandas da maternidade. Uma das cenas mais fortes do filme retrata a lembrança de quando uma de suas filhas machuca o dedo, enquanto Leda dedicava-se aos estudos. Obrigada a atender a menina, ela cuida do absolutamente necessário, mas ignora quando a filha lhe pede, repetidas vezes, por um beijinho. Isso Leda não lhe pode dar. O gesto é simples, mas a mãe, como uma enfermeira eficiente, faz tudo o que deve ser feito, menos o beijinho, que ela faz questão de não dar.


Sua partida definitiva, ao que parece, é ensaiada a pequenos passos. Da primeira vez que se afasta de casa, para participar de um congresso, ela transmite instruções detalhadas à moça responsável por cuidar das meninas. Mais tarde, quando se vai em definitivo, não há tantas instruções, apenas uma recomendação incisiva: que o ex-marido não as deixe aos cuidados de sua própria mãe - de Leda - ou as meninas correm o risco de se tornarem como ela.


A radicalidade de sua recomendação - que sabemos mais tarde, não foi atendida - nos indica que há aí algo da ordem da transmissão: Leda não suporta a mãe como mal suporta a própria maternidade.


Em dado momento, as fragilidades de Nina e de sua vida plena em família também vêm à tona e uma quase cumplicidade se estabelece entre as duas mulheres. Porém, só até o momento em que Leda confessa ter surrupiado a boneca de Helena, ação que causa repulsa na jovem mãe, alçando Leda à ordem das personalidades doentias, afinal, que tipo de gente rouba a boneca de uma criança enquanto contempla os efeitos de sua ação?


Leda é uma protagonista difícil, como são as mulheres para as quais a maternidade não basta. Ela nos convoca a perscrutar aquilo que há de insuportável na maternidade corriqueira, de cada uma de nós, já que ser mãe, bem sabemos, é tarefa ética incansável e sem garantias de plenitude, como muitas vezes se vende por aí.


A pergunta que, então, se repete inevitável e urgente é: até onde vai nossa sororidade?


Um filme imperdível! Para quem não se contenta com nenhum tipo de binarismo.






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© 2022 Marta Picchioni

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