top of page
Buscar

Entre nós e o firmamento, uma casa, todas elas

  • Foto do escritor: Marta Picchioni
    Marta Picchioni
  • 8 de abr. de 2021
  • 5 min de leitura

Há cerca de pouco mais de um ano, a casa era o lugar em que ficávamos quando não estávamos na escola, no trabalho, no encontro com amigos ou nas tantas atividades que fazíamos do lado de fora: nas ruas, nos parques, nas praças, ao ar livre.



Estar em casa era, em muitos casos, o momento de pendurar as chuteiras e despir-se de todas as máscaras, entregar-se ao ócio, ao dolce far niente, dedicar-se à leitura, ao lazer ou ao puro e simples descanso.


Então, veio ela, a pandemia, trazendo a tiracolo o imperativo do fique em casa, que acabou por intensificar um fenômeno que de todo modo já se apresentava: o de se relacionar com o fora como um lugar a ser evitado, que guardaria em seus becos e esquinas, sombras e aberturas, um perigo sempre à espreita.

Foi assim que a casa, de refúgio e porto seguro, tornou-se superpovoada e um grande maquinário da vida social. Seus cômodos, outrora privativos, fagocitaram - ou foram fagocitados? - o trabalho, a escola, as atividades de lazer, os encontros, dividindo espaço com as funcionalidades próprias de uma casa. Engolimos - ou fomos engolidos - meio sem perceber, o home office, o homeschooling, o home theater e até o home sweet home. A casa, então, tornou-se lugar de todo o fora, fazendo dele o seu quintal, mas também domesticando-o.


Ao engolirmos o mundo, não esquecemos de dar a cada parte o seu devido lugar, como convém ao bom funcionamento de toda casa bem estruturada. Nesta arquitetura do bem morar, portas e paredes são fundamentais, mas também as janelas, que mantidas abertas ajudam a arejar e a iluminar os ambientes. Elas, agora, estão em toda a parte: em nossas televisões e computadores, nos múltiplos quadradinhos dos encontros síncronos e nos infinitos links dos assíncronos, nas telas de contato imediato dos aplicativos de nossos smartphones.


Tudo são janelas. Um mundo miniaturizado ao alcance de um singelo toque que permite acesso quase irrestrito a tantos espaços quanto pudermos habitar. Assim, o trânsito entre dentro e fora ganha novas perspectivas e, para circular entre um e outro, já não é preciso nem mesmo pôr os pés para fora - ele está lá dentro!


Dentro e fora, como membranas que, de tão finas, tornam-se quase imperceptíveis... Só não para o atento poeta.


Em Caos em poesia, ainda que estivesse sob a influência de um outro contexto, D. H. Lawrence dizia que o homem não suporta viver no caos e para apaziguar sua angústia criou para si uma forma fixa e estável - uma casa - de onde vislumbra, de longe e sob a proteção de um teto todo seu, o desenrolar descontrolado da vida que flui lá fora, ao sabor insubmisso do vento. Em suas palavras:



(...) o homem não pode viver no caos. Os animais podem. Para o animal, tudo é caos, há somente alguns poucos aspectos e movimentos recorrentes dentro de ondulações vibratórias. E o animal está contente. Mas o homem, não. O homem precisa embrulhar a si numa visão, fazer uma casa com uma forma visível e com estabilidade, com fixidez.

Em seu terror pelo caos, o homem começa armando um guarda-sol entre ele próprio e aquele vórtice intenso na sua duração sem fim. Então, ele colore o lado interno de seu guarda- sol, imitando o firmamento. Então ele desfila por aí, vive e morre debaixo de seu guarda-sol. Legado a seus descendentes, o guarda-sol torna-se uma cúpula capela, uma casa forte, uma câmara mortuária, e os homens começam a sentir, finalmente, que alguma coisa está errada.

Lawrence, D.H., in Caos em poesia - tradução Wladimir Garcia.

Florianópolis: Editora Cultura e Barbárie, 2016.



Lawrence nos fala, então, sobre como a casa se assemelha à poesia, na medida em que ambas se interpõem entre nós e o mundo, oferecendo-se como um anteparo que protege, mas que, ao fazê-lo atenua a possibilidade de fazer frente à pura experiência, que faz sentir na pele e sem ressalvas, os efeitos diretos do sol e da chuva. Tanto uma como outra - casa e poesia - na medida em que reduzem os graus de exposição e de intensidade, gerariam efeitos de simulacro em nós, enquanto pretendem mediar o real, vivido como caótico.


Sendo um efeito da linguagem ou da arquitetura, tudo indica que levamos à radicalidade a ideia de viver sob a proteção de todo e qualquer perigo. Temos, então, a primazia da casa e da palavra como anteparos contra o medo do outro, dos ventos, das novas ideias, dos vírus, das sombras - a lista pode ser infinita - de modo que nos tornamos uma espécie de voyeurs e narradores de nós mesmos: aqueles que aparecem e espiam a vida passar pelas inúmeras janelinhas, já sem coragem de pôr o corpo para jogo.


Olhar através de janelas, ou fazer-se paisagem, faz parte do jogo de contemplação do fora - e apenas isso. É assim que nossa casa guarda-sol e chuva finalmente nos aparece como um amplo e brilhante firmamento, de vistas múltiplas e variadas, possibilidades a perder de vista. Mas, que pena!, nos diz Lawrence, pois toda essa vastidão não passa de um decalque, “o guarda-sol tornou-se tão grande, os remendos e rebocos, tão apertados e duros, que ele não pode ser mais rasgado. Se houvesse um rasgão, a fenda não seria mais uma visão, ela seria apenas uma violação. Nós deveríamos tampá-la de uma vez, a fim de combinar com o resto do tecido.”

Diante desta perspectiva, repleta de uma sutil ironia, a grande casa engolidora de mundos se estreita outra vez e ficamos com a sensação claustrofóbica de ocupar um dentro infinito, ainda que composto por mil olhos. É quando me lembro, com alegria, da existência de outra casa, uma tal que era muito engraçada e que, de acordo com Vinicius de Moraes, não tinha teto, não tinha nada, e ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão e nem paredes, nem cômodos, nem banheiro. Nada havia nesta casa e, ainda assim, ela era feita com muito esmero.


Talvez esta seja, de fato, uma anticasa. Ou quem sabe, a enunciação do próprio fora, de onde não se entra nem se sai por ser ele a pura passagem, o próprio mundo, habitado por todo tipo de vida, mas também por ventos e tempestades e tudo aquilo que nos escapa ao controle. Eis um belo contraponto à nossa casa superlativa: a casacosmos que, no limite, abriga a todos nós.


Nos lembramos, então, que apesar de nossos artifícios e de todas as tentativas de erigir paredes, o isolamento total, que supostamente nos protegeria do caos, não é nada além de uma ficção. Somos feitos de mundo: pele porosa ao acontecimento, atravessada pelos sopros do fora. Queiramos ou não, as janelas reais e virtuais são também feitas de frestas, por onde penetram as lascas de mundo que tentamos deixar do lado de lá.


Apesar disso, podemos muito bem empreender um certo processo ativo de destruição de muros isolantes, para que possamos habitar algum lugar entre a câmara mortuária, de Lawrence e o puro caos de uma anticasa. Entre nós o mundo, é preciso criar tetos, mas também fendas, furar membranas, para que seja possível arejar as sólidas construções que nos fizeram prisioneiros de seus confortos, com a vista e os movimentos cada vez mais adaptados à reprodução de clichês.


Uma casa porosa ao fora é tão importante quanto uma vida aberta ao acontecimento e ao imponderável. Trata-se de uma provocação (po)ética acerca de nossos modos de vida tornados excessivamente sedentarizados e pouco afeitos ao inusitado. Afinal, “o caos está sempre lá, e sempre estará, não importa o quanto nos empenhemos em construir guarda-sóis com suas mais belas e tranquilizadoras visões e seus sofás ergonômicos.” dizemos Lawrence e eu, separados pelas fendas do tempo e, mesmo assim, em processo antropofágico de pura composição.


Comentários


© 2022 Marta Picchioni

bottom of page