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Há ainda algum lugar onde se pode viver a infância?

  • Foto do escritor: Marta Picchioni
    Marta Picchioni
  • 26 de ago. de 2021
  • 4 min de leitura

Muito se fala sobre como a mídia e as redes sociais têm contribuído para a adultização das infâncias, promovendo conteúdos que incentivam o consumo exacerbado e a sexualização precoce das crianças. No entanto, sabemos que tais mídias são apenas um veículo que faz circular aquilo que já está em curso em um plano mais abrangente e, neste sentido, trata-se mais de uma questão dos usos do que das mídias em si mesmas.



Mais que as mídias, no entanto, há quem diga que é a família e a escola que hoje produzem e aceleram o processo de adultização dos mais novos. É o que defende Francesco Tonucci, pensador e cartunista italiano, também conhecido como Frato.


Tonucci nos mostra como essas duas instituições imprimem, desde muito cedo, um ritmo de vida acelerado e pautado por expectativas que rodeiam o mundo adulto, sendo o sucesso no futuro e no mundo do trabalho as métricas de comparação.


Mirando tal ideal, escola e família, fazem da falta seu principal foco de atuação, de modo que seu projeto primordial torna-se preencher tudo aquilo que, em tese, as crianças não teriam, visando o alcance de um futuro bem sucedido.


Das N possibilidades de se viver e experimentar a infância - ou das cem linguagens, para falarmos como Lóris Malaguzzi - escola e família têm apostado em apenas uma, justamente a da infância que tem como meta o tal modelo ideal. Neste caso, tudo que o que se pode fazer é o preenchimento de uma lista interminável de tarefas que, imagina-se, servirão de algum modo a esta projeção de futuro que, como sabemos, dialoga muito mais com os receios do mundo adulto, do que com as intensidades das infâncias que se desenrolam no tempo presente.


Como tantos outros campos de saber, também a educação precisa se colocar à altura de seu tempo, de modo que já não basta - se é que bastou um dia - investir na linguagem única, frente às tantas outras mil possibilidades de se viver a infância. Mas aqui uma ressalva: é preciso não confundir a emergência criadora das múltiplas linguagens das infâncias com as infinitas demandas de um mundo previamente instituído e envolvido pela exclusividade da linguagem dominante.


Corpo, movimento, dança, artes, desenho, investigação, escrita ou aquilo que Tonucci chama da descoberta do seu brinquedo favorito. O brinquedo não é outra coisa senão as linguagens com que mais nos afinamos e por meio das quais entramos com mais vitalidade no processo de nos religar àquilo que nos potencializa - e que só pode ser ativado pela via da experimentação.

Nos deslocamos, então, de uma educação calcada na ideia de falta, para outra, cujas linguagens convergem à uma ética do desejo e da curiosidade, que permite aos mais jovens ampliar seus modos de estar no mundo, na medida em que trabalham com as mãos, fazem música, cultivam uma horta, observam insetos, criam poesias, constroem engenhocas, fazem teatro e por aí afora.


Mas é preciso não confundir: não se trata do famigerado aprender brincando - uma jogada de marketing - mas da real primazia da linguagem do brincar como vetor e motor do aprendizado. Além de abandonar a ideia de falta, tal educação também abre mão da primazia do olhar adulto como métrica de sucesso, voltando-se àquilo que produzem as próprias crianças ao interagir entre si: é aí que estão as pistas para os muitos caminhos possíveis, em educação e na vida.


De acordo com Tonucci, em uma sociedade que não promove a convivência dos mais novos em espaços liberados da mediação dos adultos, a internet acaba por se oferecer como dispositivo aliado dessa infância criadora, na medida em que se apresenta como lugar de encontro e interação entre os pares, onde os mais novos podem jogar de acordo com suas próprias regras e interesses.


Aqui, o controle exercido pelos adultos sempre zelosos e vigilantes, acaba por escapar em meio a uma enxurrada de links, janelas e atalhos, verdadeiro rizoma cibernético que demonstra, em ato, o quanto crianças e jovens estão muitos passos à nossa frente quando se trata de navegar com um bom grau de autonomia.


Evidente que essa questão retorna para nós, adultos, e para o papel da educação, nos convocando a pensar sobre o fato de estarmos produzindo justamente aquilo que parecemos criticar: uma infância adultizada e sem tempo ou espaço para criar seus próprios modos de ser e estar.


Com todas as ressalvas em relação às linguagens propostas pelo universo virtual, precisaremos admitir que a proliferação de seu uso entre os mais novos não é outra coisa senão um efeito de nossa deserção da aposta nos espaços comuns como lugar de convívio, já que optamos por privilegiar a ideia de proteção e controle, sempre presentes nos espaços privativos e devidamente monitorados, que permitimos às crianças frequentar.


O espaço virtual, portanto, acaba por se apresentar como um lugar de respiro, uma lufada de ar onde aparentemente ainda é possível burlar o controle e instaurar um campo de experimentação, afirmando alguns de seus interesses, para além de nossa aprovação.

Daí que pensar e proporcionar outras maneiras de convívio, que prescindam da mediação total dos adultos e levem em conta o contato presencial entre os pares, continua a ser parte fundamental da tarefa educativa, na qual estamos a engatinhar.


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