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Ler, escrever, voar: daquilo que a escola não pode abrir mão

  • Foto do escritor: Marta Picchioni
    Marta Picchioni
  • 11 de mar. de 2021
  • 6 min de leitura

Atualizado: 15 de mar. de 2021

Em tempos de pandemia, cansaço e isolamento, quando as práticas de ensino também ficam em suspenso, ora operando por meios remotos, ora presenciais ou híbridos, mas tendo quase como definitivo o caráter impermanente de seus próprios dispositivos, o que é que fica? Ou, em outras palavras, mesmo quando tudo muda, do que não podemos abrir mão?



Antes de responder a esta pergunta, abrirei um longo parênteses para falar sobre três casos, reais e literários, em que as restrições do corpo e do movimento puderam ser enfrentadas por meio de palavras e histórias: as contadas, as lembradas, as inventadas.


O primeiro, é o caso de Malika Oufkir. Nascida em 1953, no Marrocos, Malika era filha biológica de um general e chefe do exército e da polícia secreta daquele país, mas foi criada pelo rei Mohammed V, da qual seu pai era o braço direito e, depois da sua morte, por seu filho e sucessor, Hussein II, de modo que viveu até os dezoito anos, uma vida de princesa, com toda a pompa e circunstância destinadas ao restrito círculo da realiza.


Certo dia, porém, sua sorte viria a mudar. Seu pai biológico, Mohamed Oufkir, traiu o Rei Hussein, liderando uma tentativa de golpe de Estado que, para azar de muitos, fracassou. Como resultado, Mohamed foi assassinado e sua família, entre os quais havia uma criança de apenas dois anos, foi punida com a prisão perpétua, a despeito de seu não envolvimento com o golpe e com a relação de filiação estabelecida com o Rei Hussein.


No princípio, a prisão aconteceu em regime domiciliar, mas à medida que os anos passaram, a família foi levada a outros lugares, até que terminaram presos em algum lugar inóspito do Saara, sem higiene, comunicação, nem alimentação adequada e onde ficaram cerca de vinte anos, até 1987, quando conseguiram pôr em prática um plano miraculoso de fuga e pediram asilo na embaixada da França.


O que chama a atenção na história surreal de confinamento radical dessa família é, justamente, o modo como, juntos, eles sobreviveram, dia após dia, sustentados pelo fio das narrativas que Malika contava durante às noites, pelo buraco da parede, numa espécie de jogo de telefone sem fio e da reedição das mil e uma noites.


Foram aquelas histórias que deram a todos a imagem de que haveria uma luz no fim do túnel, mesmo quando tudo indicava o contrário, e de onde tiraram as forças necessárias para empreender a tentativa de fuga que, ao final, revelou-se bem sucedida. Por meio daquelas histórias, e mesmo diante das condições mais adversas, o grupo conseguiu não apenas manter-se vivo, mas, o que é mais impressionante, com vontade de viver.

O segundo caso conta a vida de um famoso jornalista e escritor francês, chamado Jean-Dominique Bauby. Jean-Do, como era conhecido por seus amigos, nasceu em 1952 e em 1995, época de seu auge profissional, quando atuava como editor da revista de moda Elle, sofreu um acidente vascular cerebral. Um AVC pode deixar diversos tipos de sequelas nos indivíduos que os sofrem, desde algo imperceptível e sem grandes impactos na vida cotidiana até a morte. No caso de Jean-Do, após vinte dias de coma, as sequelas foram drásticas: ele teve uma rara síndrome, conhecida como síndrome do encarceramento ou locked-in, o que significa que, embora sua consciência e faculdades mentais estivessem intactas, seu o corpo havia ficado completamente paralisado, com exceção do olho esquerdo.


Foi por meio desse olho, seu elo com o mundo, que Jean-Do escreveu o belíssimo livro O Escafandro e a Borboleta, título que faz referência à pesada roupa do mergulhador - o escafandro - e à leveza do voo da borboleta. No livro, ele conta sobre sua vida antes e após o acidente, e sobre como tudo continuou pulsando pelo fio da narrativa ditada, letra a letra, pelas piscadas do seu olho-elo. O autor desenvolveu estratégias extremamente poéticas para se transportar - e ao leitor, por extensão - para outros tempos e espaços e revivê-los pelas frestas da memória e da imaginação. Em 2007, sua história virou um filme tão belo quanto o livro, onde, por meio da linguagem escrita e da velocidade das imagens, borboleteamos com ele, para os lugares mais felizes e sombrios de sua existência.


Por fim, uma história tão impactante como as anteriores, mas bem mais famosa é a da jovem Anne Frank. Nascida em 1929, em Frankfurt, na Alemanha, ela já era uma apaixonada por livros, pela escrita e pela leitura quando eclode a 2a guerra.


Seu diário, um presente dado pelo pai por ocasião de seu aniversário de 13 anos, acabou se tornando um dos documentos mais lidos e conhecidos dos sombrios tempos da guerra. Nele, Anne registrava cenas de sua vida cotidiana como quem conversa com uma amiga confidente. Eis porque batizou-o de Kitty e, assim, somos transportados a uma conversa entre amigas, que dá o tom das cores cinzentas com que a vida foi se tingindo, naquele contexto de perseguição aos judeus, desde o momento em que sua família começa a sentir medo “dos outros”, até o momento em que passam a conceber os planos de se mudarem para um esconderijo, mesmo morando na Holanda, país que também veio a ser invadido pela Alemanha.


Assim, a família chega ao esconderijo em 1942, onde permanece junto a outro casal refugiado e seu filho Peter - protagonista do primeiro beijo de Anne - além de um amigo da família, que se junta depois ao grupo. O período de isolamento durou cerca de dois anos, sem que pudessem sair às ruas, sob risco de serem capturados e enviados aos campos de concentração.


Um pouco antes do esconderijo dos Frank ser encontrado, Anne havia registrado suas esperanças de que a guerra logo acabaria e a vida voltaria ao normal, já que escutava boas notícias pelo rádio. Sua última anotação no diário data de 1º de agosto de 1944, mas apenas três dias depois e quase ao fim da guerra, o esconderijo foi descoberto e todos foram levados para o maior campo de concentração da Holanda e, de lá, enviados para outras regiões, onde vieram a morrer, com exceção de Otto Frank, seu pai, enviado a um hospital, onde permaneceu até o ano seguinte, quando a Alemanha perdeu a guerra e os judeus sobreviventes foram libertos.

Foi ele quem recebeu o diário, das mãos de uma amiga da família, e o publicou pela 1a vez em 1947. O diário de Anne Frank tornou-se uma das obras mais lidas e traduzidas em todo o mundo, transformando-se de diário de uma adolescente a documento de uma das maiores atrocidades cometidas contra a humanidade.

Fecha parênteses.

Malika, Jean-Do, Anne Frank. Três vidas separadas pelo tempo e pela geografia, mas unidas por algo em comum. Três vidas - e poderiam ser tantas outras - em que a palavra oral ou escrita esteve quase tão presente como o ar que se respirava. Foi o poder das narrativas que manteve acesa a chama e a vontade de viver e de resistir às adversas condições do lado de fora, tornado inacessível e obscuro, a partir da certeza de que dias melhores estavam por vir.

Guardadas as devidas proporções, cá estamos nós, indo para o segundo ano de um contexto de pandemia e também nos adaptando a viver com a mobilidade restrita, com medo do outro, do lado de fora, do vírus mutante, da falta de vacina e do futuro, que se anuncia mais incerto do que nunca. A escrita surge, não só como companhia, mas como ferramenta de expressão, de invenção, de criação de outros mundos possíveis.

Registrar, inventar histórias, tecer os fios da narrativa: a escrita nos convoca a cultivar em nós a habilidade de nos deslocar, ainda que nossos corpos estejam parados. Aprendemos com Malika, Jean-Do e Anne que a mente também é corpo, que ela se agita e flutua, que quer e pode habitar outros lugares. É nessa medida que a fala, a leitura e a escrita são recursos de linguagem primorosos, aos quais compete, mais do que nunca, à escola ensinar e aprimorar, seja em que tempos e em que modalidades de ensino for.

Alguém se lembra da pergunta lançada logo no início desse texto? Pois, já ao final, é hora de voltar a ela. A pergunta era: considerando as incertezas do contexto escolar, quando tudo muda, o que permanece? Do que não se pode abrir mão? O ensino da língua e da linguagem, em suas N modalidades, é um dos pilares que permanece e do qual não se pode abrir mão, pois, como vimos, será por meio deste veículo que a vida pulsa e se conecta ao outro, como ponte, como elo, mesmo quando o entorno parece desmoronar.

Será por meio da palavra: da escrita, das histórias ouvidas e recontadas, das pontes que nos ligam uns aos outros, que será possível sustentar a espera por dias melhores, que certamente virão e nos encontrarão também melhores, pelo simples fato de termos podido atravessar a tormenta e construído algum sentido à experiência do imponderável. O que deve permanecer investido, cultivado e aprimorado é sem dúvida a palavra falada, ouvida e escrita por sua possibilidade única de criar mundos e de nos dar asas.


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