Mundos para montar: sustentar o não saber como lugar de passagem
- Marta Picchioni

- 9 de set. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 10 de set. de 2021
Vivemos uma cultura que valoriza cada vez mais o saber do especialista. Para cada campo da vida ou mesmo em caso de dúvidas corriqueiras, que surjam a partir de nossas relações cotidianas - como comer, como dormir, como educar, como bem viver - recorremos a eles, os especialistas, que em meio a sua seara, tratarão de nos fornecer algumas respostas - e certa dose de alívio - para aquilo que nos desassossega.

imagem: Andy Goldsworthy
A princípio, não há problemas em chamar um especialista para conversar, desde que tomemos como condição que sua contribuição atua de modo a ampliar nosso campo de visão, trazendo, assim, mais dissonâncias do que respostas, provocando fissuras em nossas expectativas, pois, se houvesse receita de como viver uma boa vida que não nos implicasse de modo radical, haveríamos de estranhar a oferta, não?
No entanto, na maioria das vezes, o saber do especialista ocupa o lugar de fonte luminosa, dessas, que vem de fora e de cima para clarear os caminhos e preencher inseguranças, trazendo um bálsamo de alívio em meio a névoa que pode se instaurar quando sustentamos viver um processo de experimentação ativa.
Embora seja comum ouvir, aqui e ali, que o erro é importante e inerente a todo processo de aprendizagem, sustentá-lo na carne e em ato é um posicionamento bem mais difícil, que requer uma boa dose de ousadia e coragem.
Assim, seja no campo da educação ou da vida, é preciso sustentar por mais tempo aquilo que não sabemos e as certezas que não temos. Esticar os intervalos entre as demandas que chegam e aquilo que devemos entregar, para que as respostas sejam metabolizadas e não dadas de maneira afobada e automática, seguindo a lógica da produção de imagens e notificações, que rege as redes sociais.
Onde impera o desejo por visibilidade, é interessante sustentarmos com mais tranquilidade os processos invisíveis que, como sementes em solo fértil, precisam do silêncio abaixo da terra para que possam brotar a seu tempo e com toda sua potência de vida.
Sustentar não saberes e invisibilidades parece ser, nos dias de hoje, como remar contra a maré. Mas, se pensarmos que ambos são condição para que os saberes fermentados pela experiência possam brotar de seu próprio solo, entenderemos que a visibilidade terá sua vez, ao chegar de modo espontâneo, simplesmente porque algo passa a existir. Então, o panorama inicial se refaz por inteiro, recompondo a paisagem e passamos a perceber a importância de criar tempos de silêncio e de penumbra.
Tal percurso, no entanto, nunca está dado de antemão e tudo o que ele nos pede é a confiança necessária para habitar o solo onde as práticas educativas e de vida acontecem. É justamente deste solo, e não de outro lugar, que vão emergir os saberes e as respostas mais genuínas e interessantes - justamente porque são efeitos dos processos singulares que os movem, e não sua causa.
Ao sustentarmos um lugar para os não saberes, abrimos campo para que se instaurem os processos de investigação que partem, antes, de um movimento intuitivo do próprio corpo do que dos holofotes que iluminam com força apenas uma parte do caminho.
Investigar, aqui, já não se trata de buscar respostas prontas, ao modo do especialista, mas de se dedicar à atividade de coletar pistas, ali onde elas estiverem, ao modo de um bricoleur. No processo de montar mundos, somos uma combinação, entre artistas e cientistas em busca de elementos inteiros ou fragmentos para recortá-los, costurá-los, recriá-los, descartá-los, invertê-los, inventá-los por fim, tendo em vista que qualquer construção traz consigo seu caráter de provisoriedade.
O que está em jogo é o movimento que anima o constante fluxo de montar e desmontar mundos, como num jogo. Aqui, nos permitimos a criar saberes outros, inéditos a cada vez, mas não do tipo que entra no lugar das novidades imperdíveis ou das palavras de ordem, senão daqueles que se propõem como efeito dessa disposição para a vida, tornando cada trajetória uma obra em aberto - e das quais os riscos são inerentes.
É possível, por exemplo, que o bolo dê errado e tenhamos de nos servir de uma gororoba mal cozida. Mesmo assim, ao não encenar o tradicional roteiro dos caminhos de sucesso, os resultados mal sucedidos têm muito a nos ensinar sobre o processo e a possibilidade de tentar maneiras e de persistir no caminho - agora com mais clareza sobre quais trajetos ou escolhas podem ser refeitas.
Então, já não falamos de um mundo único e pronto para ser “descoberto” ou “desvelado” com ajuda de quem o sabe, mas sempre de mundos na iminência de serem reinventados, ainda que na companhia de quem já os inventou. Teremos mundos montáveis e cambiantes, muitos deles, mundos plurais e que se oferecem, generosamente, como lugar de passagem. Teremos enfim mundos que nos pedem bons usos e bons modos - e que nos implicam eticamente em sua construção.






Comentários