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O tempo pede passagem

  • Foto do escritor: Marta Picchioni
    Marta Picchioni
  • 30 de dez. de 2021
  • 2 min de leitura

que tudo passe


passe a noite

passe a peste

passe o verão

passe o inverno

passe a guerra

e passe a paz


passe o que nasce

passe o que nem

passe o que faz

passe o que faz-se


que tudo passe

e passe muito bem.


*

Paulo Leminski


imagem: @yuvalrob


O tempo passa através de nós. Um ano termina e outro desponta, em sincronia.

E quando mudam os ponteiros, o que muda afinal?


A virada do ano pode ser mera convenção social, um acordo entre nós e Cronos, para contabilizar e dar nome ao tempo, que não para de passar. E, então, nos tranquilizamos, por entender que nesta fração de passagem, neste hiato com hora marcada, nos assentamos sobre chão seguro, e lá vamos nós, organizar calendários, atualizar metas e refazer pactos com nossos desejos intencionais.


Reset!


Burocrática ou não, a onipresença de Cronos em nossas vidas move energias e cria sentidos: avante! E, no entanto, essa mínima fresta que se abre, pode se apresentar como boa ocasião para um encontro mais raro, desta vez com Kairós, o deus do tempo oportuno.


Diferente de Cronos, Kairós nos brinda com um tempo indeterminado. Fala do momento em que algo de inédito e especial pode acontecer, desde que nos permitamos entrar em experimentação.


O momento oportuno não vem com hora marcada, mas pode se aproveitar da passagem de Cronos para acionar em nós a vontade de desbravar caminhos.


Com Kairós, o que está em jogo são as memórias de futuro, o cultivo de uma abertura suficiente para que possamos nos entregar a uma espécie de vir a ser, ainda sem nome, mas em fluxo.


Não as metas pré-fixadas - as fatídicas resoluções de ano-novo - mas o cultivo do trajeto, que se dá sempre pelo meio, pois se a experiência do tempo nos traz a possibilidade de criar novas oportunidades, ela também diz respeito à continuidade de um elemento que nos atravessa e não para de passar sobre nós, como bem diz Leminski.


Com Kairós, o tempo passa e é preciso coragem para sustentar a presença em um campo de experimentações, de onde é possível alisar a superfície - nossos corpos - e desvencilhar-se de velhas marcas, para que, então, novas memórias possam ser construídas.


Em meio à euforia da contagem regressiva e dos desejos protocolares, que lugar abriremos para o que em nós pede passagem?


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© 2022 Marta Picchioni

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