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Onde mora a inovação? a arte de cartografar processos e traçar percursos de aprendizagem

  • Foto do escritor: Marta Picchioni
    Marta Picchioni
  • 10 de dez. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 15 de mar. de 2021

No auge do processo de digitalização das práticas de ensino, a questão sobre como voltar a ocupar as salas de aula, no momento de retornar ao ensino presencial se evidencia. Como aproveitar esta oportunidade para fazer do retorno uma reinvenção deste espaço, há tempos tão necessária?



Historicamente, a sala de aula tem sido vista e vivida quase como um lugar apartado dos demais espaços da escola e do entorno por suas quatro e sólidas paredes. Junto à questão arquitetônica, soma-se a semântica: o que significa nos remeter a uma sala de aula, quando as próprias noções de sala e de aula também estão na berlinda?


Carteiras individuais, uso de livros didáticos, conteúdos disciplinarizados e desarticulados entre si. À medida que os estudantes crescem, perde-se de vista as práticas inventivas que investem no uso dos espaços como ambientes de aprendizagem, estejam eles dentro ou fora das tradicionais salas de aula.


Quais os operadores necessários para tornar este um lugar mais interessante?


A sala de aula, vivida como um plano liso de superfície, é um lugar plástico, que se transforma a partir dos usos que dela fazemos, permitindo que novos caminhos e práticas possam germinar. Para operar com este conceito, é preciso instaurar um campo de escuta e de presença, permitir que os marcadores fixos deem lugar a outros, mais porosos e transitórios, de acordo com o que se deseja explorar.


Agrupamentos feitos e refeitos a partir dos desafios propostos, componentes curriculares pré existentes que venham a se compor com aquilo que movimenta o grupo - cada grupo -, olhar atento aos processos que se desenham, construídos em conjunto e à medida em que as aprendizagens avançam.


Aqui, o professor é um cartógrafo e a sala de aula, seu grande campo de investigação. A cartografia é uma metodologia de pesquisa que não parte de procedimentos previamente estabelecidos para serem aplicados ao campo. Ela é, antes, uma atitude investigativa a ser empreendida em ato e a partir da prática e do encontro entre pesquisador e campo. Em outras palavras, só há cartógrafo na medida em que ele empreende a ação de cartografar, e não antes disso.

O professor cartógrafo não vem ao encontro de seu grupo com algo já estabelecido. É preciso conhecê-lo, provocá-lo, produzir movimento e propor situações para que todos experimentem novos modos de agir e, assim, seja possível mapear suas linhas de força e provocá-los ainda mais.


A cartografia é um processo ativo, feito de ação e de escuta, o que não significa escutar apenas aquilo que é dito, mas fundamentalmente estar atento ao que acontece e propor composições. O processo cartográfico é, neste sentido, uma prática investigativa necessariamente coletiva, que parte dos acontecimentos e dos encontros reais e palpáveis de cada grupo, de cada sala de aula, não para reafirmá-los, mas para movimentá-los a cada instante.


Reproduzir rotas já traçadas e percorridas por outros estudantes em anos anteriores é apenas o caminho automático e já conhecido. É claro que podemos rememorar, mas não para repetir, não para reproduzir infinitamente o que já foi feito e refeito, pois a cada início, a perspectiva do novo se instaura.


Em tempos de aulas virtuais, é necessário ter em mente que o uso de novas tecnologias, por si só, não garante a produção de uma prática inovadora. A inovação que tanto se almeja não mora nas novas tecnologias. Estas são apenas meios, ferramentas, que podem ser usadas tanto para atender a uma lógica reprodutiva como podem estar a serviço de uma lógica da invenção. O que muda é o olhar, o investimento do professor nesses usos, como professador ou como cartógrafo.


A inovação está, portanto, na possibilidade de deixar o novo emergir e o novo vem do grupo, de seus interesses e possibilidades de imprimirem novas marcas, tracejar outros percursos e habitar os ambientes de aprendizagem, sejam eles virtuais ou presenciais.

Para tanto, o professor cartógrafo é cada vez mais uma figura necessária. É a partir de seu olhar investigativo que será possível promover encontros entre linhas de força variantes: componentes curriculares institucionais & desejos emergentes, caminhos do passado & escolhas do presente, a temporalidade dos prazos & a dos processos. A sala de aula como campo de escuta e experimentação será também um espaço de inúmeras negociações, sempre em movimento, sempre em frente, lugar de conflitos e de escolhas e isso é bom.


Quando ela funciona como mero espaço reprodutivo, o desejo de todos se esvai e o que fica são as cascas, as funções protocolares de agentes que atuam da maneira esperada: o já dado, o prescrito, os papéis a serem desempenhados. Aqui, o uso das novas tecnologias fica a serviço da mera documentação e do controle dos processos que, por sua vez, mais se assemelham a uma lista de tarefas a serem cumpridas. Esta prática, sabemos, está a serviço de um grande esgotamento, de uma desistência generalizada, um cansaço. Ela fabrica apatias.


Se queremos estudantes desejantes, vivos e criadores é preciso começar por nós mesmos. Manter acesa a chama que nos convoca a habitar este espaço com toda nossa energia. Todos ouvintes, todos cientistas, todos aprendentes, todos traçando caminhos, rotas e planos de composição.


Ao fim e ao cabo, instaurar uma sala de aula ativa e criadora é um movimento protagonizado por muitos. Cada estudante singular, cada professor cartógrafo, cada grupo em seu plano de experimentação, compondo um verdadeiro laboratório de produção desejante, um lugar onde todos queiram estar, onde todos contribuam, aprendam e se transformem. Está aí a inovação.



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© 2022 Marta Picchioni

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