Por que ainda apostamos no uso dos livros didáticos?
- Marta Picchioni

- 6 de nov. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 18 de mar. de 2021
Sabemos que a escola é o lugar, por excelência, onde os saberes são didatizados. No entanto, há formas e formas para isso acontecer e o objetivo aqui será problematizá-las, tendo em vista a necessidade de avançarmos de uma didática centrada no ensino, à outra, pautada pela aprendizagem.

Trago um exemplo bem prático e doméstico de um conteúdo da disciplina de Geografia desenvolvido em uma sala de 4o ano.
A Unidade 4, do livro didático, intitulada População e Trabalho, inicia seu primeiro capítulo tratando das Populações e as Atividades econômicas. Logo no início, define o conceito de economia, bem como os de setor primário, secundário e terciário, com suas devidas características. Como recurso, vale-se de textos explicativos curtos e imagens, intercalados com perguntas e respostas sobre os mesmos.
Após leitura e elaboração das respostas, os estudantes devem fazer uma prova sobre este mesmo conteúdo. Nela, a estratégia se repete: pequenos textos explicativos seguidos de perguntas ou alternativas de múltipla escolha, em que as respostas são facilmente localizáveis no texto de referência.
Tal lógica, como vemos, centra-se numa metodologia de ensino transmissiva e expositiva, que valoriza a reprodução de respostas já conhecidas, assim como o acerto. Há pouco ou nenhum espaço para a elaboração de boas perguntas e pela abordagem inter ou transdisciplinar do assunto, que se encerra em si mesmo, como se dissesse respeito apenas à unidade 4 do livro didático de Geografia.
Vemos pouca articulação das definições conceituais apresentadas com as trocas econômicas que, de fato, estabelecemos em sociedade e em nossas escolhas cotidianas, como se os conceitos fossem descolados e independentes da vida prática. Nenhum espaço para a experimentação, levantamento de hipótese e testagem.
Como faríamos, então, para abordar este mesmo conteúdo numa lógica que coloca a aprendizagem no centro do processo?
Em primeiro lugar, jamais partiríamos da definição prévia dos conceitos em jogo. Uma didática centrada na aprendizagem, parte da ação e da investigação dos próprios estudantes. Devem ser eles os autores das pesquisas que trazem à pauta os estudos da cadeia produtiva.
No caso em questão, a intenção é que eles aprendam, não apenas os processos necessários para que um produto chegue às mãos dos consumidores, mas também que sejam agentes ativos neste processo, que envolve leitura, pesquisa e documentação. Como ponto de partida, os estudantes podem escolher um produto que faz parte do seu dia-a-dia, como o açúcar, o chocolate, o macarrão, ou mesmo outros, mais industrializados, que tragam consigo uma marca específica - toddynho, polenguinho, yakult. Assim, iniciam as pesquisas, abordando desde o uso da matéria prima originária, até sua transformação em produto final, já nas mãos do consumidor.
Supondo que a escolha seja pelo açúcar - e aqui é importante mencionar que há espaço para que escolhas diferentes possam ser feitas - chega o momento de levantar boas perguntas, que darão o norte das pesquisas realizadas. Eis alguns exemplos: Qual sua matéria prima originária? Quais os procedimentos necessários para que se transforme em açúcar? Quantos são os tipos de açúcar possíveis de serem produzidos neste processo? Quais outros produtos residuais ou alternativos ao açúcar que também são derivados da mesma matéria prima? Como acontece o processo de refinamento, embalagem e distribuição do açúcar em centro comerciais como, por exemplo, os supermercados? Pode-se ainda pesquisar porque há diferença de preços entre diferentes tipos de açúcar e até quais as suas propriedades nutricionais.
O ponto de partida é, portanto, a elaboração conjunta de boas perguntas, que exigem estudo e pesquisa reais para serem respondidas - e não apenas a leitura linear dos trechos apresentados no livro didático.
Após a realização dessa etapa e da troca com os colegas, chega o momento de apresentar alguns conceitos. Em todo este processo, quais etapas corresponderiam aos setores primário, secundário e terciário e por quê?
Deixar que os estudantes pensem e elaborem suas hipóteses, sem compromisso com o acerto. Propor que pensem a cadeia produtiva pesquisada nesses três tempos. Como dividiram? E por quê? É importante ter em mente que o erro faz parte do processo, trata-se de um elemento presente quando o que está em jogo é a construção de hipóteses e de argumentos.
Numa abordagem centrada na aprendizagem, o exercício do pensar e a ação sobre o objeto de estudo estão nas mãos dos estudantes e sob a orientação do professor. A leitura, embora imprescindível à pesquisa, não é apresentada de modo linear e pautado em respostas já sabidas, como faz o livro didático. Ela é meio para a construção de relações e argumentos.
Aqui, fica evidente que não se trata só de geografia, já que acionamos conceitos de muitos campos do saber que nos permitem estabelecer conexões com nossos modos de vida.
A partir do estudo de uma única cadeia produtiva, podemos pensar sobre nossos hábitos de consumo, seus impactos ambientais, formas alternativas de cultivo, assim como as propriedades nutricionais dos alimentos e o impacto do uso de produtos químicos em nossa saúde, por exemplo.
O leque se abre e a construção de conhecimento se torna mais complexa e prolongada. É preciso ter tempo para se dedicar a um processo de pesquisa como se deve e a abordagem trazida pelo livro didático torna-se obsoleta, mesmo aqueles que se dizem de acordo com a BNCC. Isso porque uma didática que tenha como foco a aprendizagem, não se beneficia da abordagem centrada da produção de respostas - a famosa decoreba - ou que baseia-se na construção de conhecimento fragmentados por disciplinas, como propõem os livros didáticos, todos eles.
Numa abordagem que tem como foco a aprendizagem, os estudantes podem escolher que produtos pesquisar e nem todos precisam passar exatamente pelos mesmos passos, pois, o que está em jogo é que, mesmo partindo de pontos diferentes, o estudo sobre o processo e impactos de uma cadeia produtiva, esteja garantido. Todos praticarão as ações de: problematizar, anotar hipóteses, pesquisar, registrar e trocar entre si suas descobertas. Isso é o fundamental.
Decorar as definições de setor primário, secundário e terciário não contribui em nada na construção de uma aprendizagem que seja de fato ativa. Tais definições serão esquecidas assim que a prova acabar, sem que se tenha formado algum ponto de convergência entre o estudo realizado e as práticas cotidianas.
É preciso que avancemos em nossas práticas escolares e que não nos contetemos com um posicionamento retórico que, se não for acompanhado das devidas ações, não garantirá uma abordagem ativa, transdisciplinar, reflexiva e crítica, que caracterizam as metodologias pautadas na construção de uma aprendizagem com sentido.






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