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Que aldeia é essa que estamos criando?

  • Foto do escritor: Marta Picchioni
    Marta Picchioni
  • 29 de jul. de 2021
  • 3 min de leitura

Atualizado: 30 de jul. de 2021


Diz um provérbio africano que é necessário uma aldeia inteira para educar uma criança.

A imagem é forte e bonita. Nos remete a uma espécie de dramaturgia rizomática, afinal, o que é a criação de uma criança, senão nossa própria maneira de dar continuidade à realidade que criamos para nós mesmos?





Tomando o continente africano como referência, que é de onde se origina o provérbio em questão, nos remetemos a uma certa imagem de aldeia, onde a criação das crianças é uma responsabilidade coletiva e compartilhada entre todos.


No entanto, com o passar do tempo e no curso de um certo projeto civilizatório empreendido pelo processo de colonização, as aldeias foram dando lugar a modos de vida cada vez mais privatizados e institucionalizados. Morar em cidades, educar nas famílias, ensinar nas escolas, trabalhar nas fábricas: a vida se especializa a tal ponto que a experiência de viver em ideia de aldeia, antes originária, torna-se uma imagem exótica e ultrapassada.


Os efeitos desse processo sobre as crianças e suas infâncias é direto e a educação se desloca de um lugar comum e compartilhado à proteção privativa do lar e da escola, tornando-se uma competência específica de profissionais.


Como compreender, então, que em pleno contexto educativo das grandes metrópoles o provérbio que dá início a este texto venha sendo repetido quase como um mantra a ser perseguido nos dias de hoje? Será que convocamos essa ideia de aldeia justamente por perceber o quanto nos afastamos desse modo de vida e agora - talvez tardiamente - o desejo de restaurá-la soe como uma saída possível aos tantos desafios que se apresentam no âmbito da educação?

Pressuposto central da modernidade, a ideia de que família e escola assumissem, juntas, a responsabilidade pela educação das crianças parece, hoje, já não ser suficiente. Fosse assim, as crianças não estariam lotando os consultórios psis ou frequentando cursos recreativos ou formativos no contraturno escolar. Tais saídas, no entanto, apostam outra vez no caminho instituído e institucionalizado, no qual as crianças permanecem apartadas do campo social mais amplo, dando continuidade a um certo projeto civilizatório que parece se distanciar da imagem de aldeia aqui evocada.


É então que outra ideia-conceito pode nos ajudar: a de comum. Muitos autores têm se debruçado sobre a construção de uma topografia do comum, não para fazer da imagem de aldeia uma alegoria ou uma organização a ser reproduzida, mas para tomá-la como proposição conceitual e, nesta direção, possa nos inspirar a pôr em prática nosso próprio modo de instaurar o comum.


Silvia Federici, autora italiana, aposta na construção de um comum que se paute nos fazeres comunitários, servindo de solo conceitual não apenas à organização do trabalho produtivo, mas sobretudo do reprodutivo, do qual fazem parte o cuidado e a educação das crianças - e que historicamente recaiu sobre as mulheres e ao universo privativo - mesmo quando público - de casas e escolas.


Segundo Federici é na passagem à sociedade capitalista que a separação desses dois tipos de trabalho, o produtivo e o reprodutivo, se acentua, acrescentando ao segundo um status de desvalor. Não por acaso, nas sociedades democráticas do presente, homens e mulheres acabam por migrar para trabalhos do primeiro tipo, fazendo os do segundo, um lugar de segunda categoria.


Junto à leitura macropolítica de Federici, temos a leitura micropolítica proposta por Suely Rolnik. A psicanalista toma como ponto de referência o diálogo com o autor italiano Antonio Negri e o estadunidense Michael Hardt. Na chave micropolítica, a instauração do comum passa por uma política do desejo e pelo esforço ético de nos apropriarmos de nossas potências criativas e criadoras atuando, antes de tudo, a serviço das vidas como vetores em expansão.


Deste modo, o comum em sua vertente micropolítica, seria, nas palavras de Suely: um campo imanente da pulsão vital de um corpo social quando a toma em suas mãos, de modo a direcioná-lo à criação de modos de existência para aquilo que pede passagem.


Sob esta ótica, o comum é tudo aquilo que pode emergir de um campo compartilhado de encontros, dando caminhos e direção ao que em nós pede passagem. Vale lembrar aqui que esse nós é sempre coletivo - uma multiplicidade que nos habita - e que talvez queira fazer passar outras maneiras de experimentar a vida.


Entre tensões e convergências, os campos macro e micropolíticos nos ajudam a tecer uma ideia de comum, pavimentando o terreno para que possamos pôr em experimentação nossa próprio modo de fazer aldeia. Não uma simples reprodução de uma aldeia pré existente, ideal de outros tempos e lugares, mas a contínua atualização para instaurar certo tipo de aldeia-conceito que funcione para nós.


O fundamental aqui é o entendimento de que esta condição não está dada e que neste terreno, temos muito por fazer. Tudo.


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© 2022 Marta Picchioni

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