top of page
Buscar

Sobre escola, gênero e identidade

  • Foto do escritor: Marta Picchioni
    Marta Picchioni
  • 24 de dez. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 18 de mar. de 2021

Tenho uma amiga que vive em Grospierres, na França, e acompanha de lá os posts do (hi)ato.educativo, o que me deixou muito feliz. Ela me escreveu para contar sobre um tema que tem lhe martelado a cabeça: o descompasso entre a atuação da escola e a realidade das novas identidades de gênero.


lygia clark, bichos.


Não se trata de um tema novo, mas ele foi reavivado pela notícia de uma jovem transgênero de 17 anos que cometeu suicídio após mais um dos tantos episódios de preconceito e não aceitação que teriam ocorrido na escola onde estudava. Ser encaminhada para a direção pelo fato de usar saias quando seu fenótipo é, ainda, o de um menino, foi o estopim para que cometesse esse gesto radical e tristemente lamentável.


Este é, de fato, um tema urgente e necessário do qual a Escola não pode se furtar de encarar de frente, em pleno desenrolar do século 21. Penso eu que temos, sim, muito a superar, mas não proporei aqui uma abordagem militante, pois entendo que, embora tenha sua importância, já as temos aos montes.


Na época em que eu era adolescente, falava-se em orgulho LGBT. Hoje, essa sigla cresceu: é a LGBTQIA+ ou LGBTQQICAPF2K+, indicando que outras categorias passaram a fazer parte do movimento que luta por igualdade de direitos e representatividade para as novas e crescentes identidades de gênero. O movimento, é claro, tem seu mérito, principalmente no que se refere à atuação macropolítica, mas, no plano dos afetos, das relações cotidianas, dos dramas comuns de cada jovem que se sente deslocado e pouco aceito em seu círculo social mais próximo, penso que a abordagem deve ser outra.


Se, em macropolítica, a luta por igualdade de direitos é legítima, no campo da micropolítica, tudo gira em torno da absoluta legitimidade de todas as manifestações da diferença.


Somos diferentes e ponto. Somos singulares, raros, incomparáveis. Na micropolítica, a vontade de igualdade perde espaço para a absoluta plasticidade que a manifestação da vida em nós é capaz de atingir. É com isso que as escolas, que lidam cotidianamente com as experiências concretas de crianças e jovens reais - suas alegrias e suas tristezas - terão de se haver.

A luta micropolítica não é contra o outro nem toma como necessidade a ampliação de uma consciência coletiva. Ao contrário, trata-se de um combate afirmativo e criador, no qual as diferentes manifestações da existência são válidas simplesmente porque existem.


Isso diz respeito ao gênero, mas também às formas de aprender, por exemplo. Uma existência precisa ter espaço para se manifestar e buscar o melhor de si. Acontece que, muitas vezes, de forma equivocada, as existências singulares, que se sentem inadequadas e buscam aceitação, acabam por ocupar, de forma ativa ou passiva, o lugar daquele que trará “consciência” à sociedade. Esse é um peso grande demais para recair sobre um jovem ou criança: educar os outros, trazer luz à sua comunidade.


O caminho da conscientização talvez caiba melhor na luta coletiva dos movimentos. Os corpos reais, de pessoas de carne e osso que existem e transitam por diversos ambientes e afirmam sua condição justamente por isso, não devem colar em si a identidade de uma sigla e fazer de sua vida uma luta por direitos. Nossas singularidades são plurais, múltiplas, plásticas, diferem umas das outras e também entre si mesmas. Podemos testar: ser e deixar de ser, mudar de lado e de profundidade, de hemisfério, de latitude, de ideia. Podemos experimentar e transitar e isso é bom.


É nessa vertente que nos cabe atuar como educadores. Não uma pedagogia da forma fixa e da permanência, mas da composição e da liberdade. Nenhuma existência deve se afirmar como afronta a outra, seja na posição de mártir ou de carrasco. É preciso, de modo urgente, superar os binarismos que nos colocam diante desse impasse insuperável.


Em um momento histórico tão povoado por afetos extremados e raciocínios polarizados, me vem à mente a obra de uma artista brasileira que propõe a antítese de tudo isso. Lygia Clark trabalhava com formas plásticas e moldáveis. Seu eixo condutor eram as linhas que podiam ser dobradas, esticadas, encurtadas, podiam se encontrar ou se distanciar, a depender do movimento realizado, de forma que seus desenhos eram repletos de perspectiva e, suas esculturas, cambiantes, móveis e mutáveis.


Lygia morreu em 1988, há mais de 30 anos, e o que impressiona é o quanto sua obra converge profundamente com a necessidade dos nossos tempos: abrir mão das formas fixas, das categorias plenas e imóveis, da perspectiva única. Sua obra nos ajuda a dar voltas, a assumir novos ângulos, a transmutar formas. É necessário que consigamos trazer esses princípios para nossos modos de vida, menos para nos afirmar como identidades da categoria X, Y ou Z do que para poder experimentar composições e durações, ainda que sem nome, ainda que provisórias.


A identidade de gênero não escapa a essa proposição. Cada vez mais sua forma estanque e unívoca deve sair de cena, dando lugar às multiplicidades. A educação escolar terá de se haver com isso, menos para reafirmar movimentos minoritários do que para garantir a existência íntegra e respeitosa de qualquer corpo que a habite.


Usar saia ou chapéu, cabelo curto ou comprido, pintar unhas ou não, usar brincos ou batom são, antes de tudo, convenções sociais também plásticas e variáveis entre diferentes culturas e no interior de uma mesma. É possível e preciso esticar as linhas e alargar fronteiras no que se refere ao uso de roupas e acessórios, para muito além do rosa e azul.


Nossa tarefa como pais, professores e educadores e pessoas em geral, é nada menos que afirmar a existência plena de qualquer singularidade, investindo nas potencialidades daquilo que de melhor podemos vir a ser, ao invés de gastar tempo e energia insistindo que caibamos, todos, nos mesmos moldes pré fabricados que já não servem a ninguém.


Que possamos construir um mundo tão largo, que cada existência não se contente em caber numa sigla e sinta-se legitimada para existir do jeito que for.









Comentários


© 2022 Marta Picchioni

bottom of page